sábado, 13 de agosto de 2011

Chico Pereira - um 'Abre Portas' para o futuro


Foto de Harrell, Tomas W M – Academia Paulista Letras

O homem de que vou falar hoje nasceu em 27 de dezembro de 1857, foi professor, escrivão da coletoria e escrivão de vara e também tanoeiro. Inesquecível nas ações de caridade foi um dos fundadores da Sociedade São Vicente de Paulo. Um Evangelista de bondade inata faleceu no Asilo aos 12 de agosto de 1944 e em homenagem a esse senhor de coração puro no dia 12 de agosto de 2007 que um busto foi fixado diante do Lar que abriu-portas para os desamparados acentuando ainda mais a importância desse Francisco Evangelista Pereira de Almeida.
 O dia 12 de agosto é um dia muito especial para minha Tatuí, é um dia em que voltamos os olhos as ações caridosas de um "homem simples, um apagado professor de escola primária" foi o primeiro professor de Paulo Setúbal, grande ícone na literatura dos anos 20, também nascido em Tatuí, mas hoje, vou deixar um pouco de Paulo Setúbal de lado, apesar de todo texto abaixo ter citações de seu livro "CONFITEOR", mas hoje, dia de santo Euplúsio, vou falar aqui de um homem caridoso temente a Deus chamado popularmente de Chico Pereira.

Foto de Harrell, Tomas W M – Academia Paulista Letras
 Prestem muita atenção, meus amigos, na figura desse homem, desse caridoso senhor que morava na Rua General Carneiro de minha Terra, depois Rua do Comércio, hoje, atual Rua XI de Agosto, em minha terra acontecia nos tempos idos mudanças de nomes de ruas e praças era quase que uma tradição alterar os nomes, inclusive a Rua Francisco Pereira de Almeida, pouca gente sabe onde fica, e é a rua que faz frente ao Lar São Vicente de Paulo, quem o batizou lá, conhecia com certeza o esforço humanitário dedicado pelo homem de condição econômica modesta, mas, que se tornou o homem mais rico de minha terra.

Seu Chico Pereira, como dizia, morava nessa rua, numa casinhola baixa, pintada de azul, com uma porta e duas janelas, modestíssimas. Foi nesta casa, hoje demolida pela memória do tempo, porque os homens ainda não entenderam que para sermos o que somos hoje, no passado outros homens lutaram para que o futuro de agora acontecesse e devido a essa plena falta de entendimento, é que, um fato histórico, ou mesmo, um prédio que serviu como casa de solidariedade, acaba sendo esquecida, demolida, apagada. Mas esse, Seu Chico Pereira, não se apegava tanto a isso, o material era de uso do momento, o que tornava ele diferente e que foi inesquecível para Paulo Setúbal, foram suas ações de caridade, ações que brotava da alma e gerava, naquele que o via, ou até agora, neste momento, naquele que ouve a história deste Evangelista, de nome e atitudes, o amor dedicado ao próximo, dedicado a um maltrapilho, a um pobre, a um esquecido, porque não sabemos se esse pobre, esquecido, maltrapilho, não será um de nós no futuro, que poderá olhar nos olhos de um Evangelista, seguidor do apagado professor de escola primária que nos irá estender as mãos.
Baú de Seo Chico Pereira - Acervo Museu Paulo Setúbal
Exemplo de Cristão, como está acentuado na primeira estrofe do Hino de Tatuí, Seu Chico Pereira era um evangelista e em sua casa todas as manhãs, às 10 horas era servido o almoço, e naquela mesa de peroba, onde comiam Chico e mais três irmãs todos os dias, sem faltar um entravam uns homens maltrapilhos, pé-no-chão, que viviam pela cidade ao Deus-dará, mesma situação acontecia as 4 horas de todas as tardes, à hora do jantar outros homens, igualmente maltrapilhos, igualmente pé-no-chão, entravam silenciosos por aquela casinhola adentro. Iam até a cozinha e lá, naquela na mesa de peroba, enegrecida e nua, onde se enfileiravam toscos pratos de folha, Seu Chico dava de comer aos pobres. 

A pureza do Evangelista, daquele que se anulava para educar os inocentes, que incentivou Dona Mariquinha, mãe de Paulo Setúbal, a levá-lo para São Paulo, acentuando que Tatuí, naquela época, como ainda não o é, mas que esforçadamente se tornará no futuro, não era, também, naquela época uma cidade propícia para as atividades intelectuais de Setúbal. O professor que não utiliza de nenhum método especial de ensino, sendo apenas um correto e eficiente professor primário era solteiro como suas irmãs, desconhecemos o futuro genealógico do casto, de alma nobre, mas que muito ensinou em ações de fé e caridade. 
Monumento em Memória de Seo Chico Pereira - frente ao Asilo
“Muito pouca gente de minha Terra sabe disso...”, já afirmava Paulo Setúbal em Confiteor, e eu peço permissão para lhe emprestar dele a frase que por ele foi escrita, acrescentando: - Ainda agora, neste instante, muito pouca gente de minha terra desconhece a importância do homem Chico Pereira, um dos fundadores do lar São Vicente de Paulo.
Falar de Seo Chico é perfilar pelas indicações já apresentadas por Setúbal, que o conhecendo ainda na infância foi relembrar do caridoso homem de bondade inigualável quando o ar já lhe dificultava a respiração e assim descreve o homem rico que tanto emociona os leitores de Confiteor: “era regular e harmonioso. Sóbrio, com seu andar pausado e lento. As palavras caiam-lhe da boca medidas e pesadas”. Tanto carinho dedicado ao professor que o descreve como um exemplar vivo, marcante que se tornou exemplo de homem para Setúbal que perdera seu pai quando ainda tinha 04 anos de idade. E ainda acentua: “Um homem de fé e temente a Deus, freqüentava a Igreja todos os domingos e todo o domingo comungava, além de não ter malquerença política. Assim foi o sereno e incontagiável professor de primeiras letras.”
E até agora, se ainda é necessário esclarecer o porquê intitulei esse artigo como Chico Pereira - um "Abre-Portas" para o futuro, vou ser breve: Um homem que abre as portas de sua casa todas as manhas e todas as tardes para servir almoço e jantar, que abre as portas para que Dona Mariquinha levou Paulo Setúbal estudar em São Paulo, que abre as portas para o Asilo que ainda agora, como disse está situado na rua que leva o nome do professor, e, ainda mais, é o nome da Escola Estadual que fica na Rua Santo Antônio de Tatuí, onde anos mais tarde fui educado, e que até agora, mesmo depois de quase 70 anos completos de seu falecimento, ele, o primeiro professor de Paulo Setúbal realiza o 'abre-portas' para os que precisam caminhar para o futuro. 
Bem, Seu Chico é um livro de inesgotáveis adjetivos que possam qualificar um homem temente a Deus, um homem que as tardes quando passava pelas ruas da Cidade Ternura, “com sua puída roupa escura a bengala na mão, todos da cidade se descobriam com respeito e lá ia o homem ao Asilo São Vicente de Paulo visitar seus amigos, amigos e irmãos. Ele, essa boa alma, planejara a obra, lançara a idéia, arrecadara as primeiras dádivas, fizera lançar a pedra inicial. Custara-lhe muito, com as migalhas que lhe arremessavam a  sacola, botar a obra de pé. Mas assim o fez! E o Asilo enfim “abriu as Portas” para receber um grande número de pessoas idosas que o buscavam.” – assim, com essas palavras Setúbal imortalizou o caridoso homem tatuiano que acrescentou ainda: - “E agora Abertas as portas do Asilo todas as tardes, todas, sem faltar uma, lá ia o São Vicente de Paulo de minha terra visitar os amigos. E os amigos ao soar cinco horas já sabiam, já aguardavam, já esperavam pelo alimento que o Evangelista vinha oferecer. Assim seu Chico Pereira chegava no Asilo, dependurava o chapéu, encostava a bengala num canto e a beira da cama de Anastácio, um dos muitos amigos que lá viviam e logo que sentava-se muitos cabeças brancas se aproximavam e cercavam o professor humilde, abria o livro velho que trazia na mão. Era um livro amarfanhado, com as folhas amarelecidas, velho, velho, que aquele doce homem lia todos os dias, absolutamente todos, há já 50 anos. E com sua voz grave destacando acentuadamente as palavras e assim os velhos do Asilo ouviam atentos e curiosos as palavras, as boas novas que o Evangelista lhes ofereciam. Era para aqueles pobres a redenção, a esperança para o futuro, ou até mesmo o conforto daqueles que da vida nada mais podem esperar.”
Seo Chico Pereira - feito por Cláudio Camargo
E foi assim que Seo Chico foi se tornando, silenciosamente, sem o saber o homem mais rico de minha terra. Foi assim que Paulo Setúbal o descreveu no capítulo VI de suas confissões a figura de seu Chico Pereira, ele, esse homem, que se tornou no futuro de agora, um exemplo para muitos tatuianos, ele que repousa ao final da Rua do Cruzeiro, frente para a avenida João Clímaco de minha Capital da Música, num túmulo simples a direita de quem da entrada principal possa caminhar, num jazigo de cor verde de nº 3109, quase que imperceptível os jazigos luxuosos dos homens ricos de minha terra...
E imortalizado na vida de Paulo Setúbal, um dos trechos mais lindos de “Confiteor” que tem muitos trechos lindos, o escritor descreve nosso caridoso “Antes de ir-me de vez de Tatuí que não tornarei a ver tão cedo, preciso falar de um homem rico que lá vive. De um homem rico, rico. Porque amigo, não sei se você sabe, na minha terra há bastantes homens ricos. Mas esse é o homem mais rico de minha terra. Dá minha terra só não. Pelas cidades em que andei, por países vários em que vivi, eu conheci mais tarde outros homens ricos, outros e muitos que eram mais ricos do que os homens mais ricos de minha terra. Pois esse, o de que falo aqui, é ainda mais rico do que todos os  homens ricos que eu conhecia. Pouca gente, na minha terra, sabe disso. Muito pouca gente. Como sabe-lo? Ele é um simples, um humilde, um apagado professor de escola primária. Foi o meu primeiro professor. Chamasse: Seo Chico Pereira. Seu Chico morava na mesma rua em que eu morava... Seo Chico Pereira tinha 3 irmãs que como ele eram solteiras, quando elas faleceram ele, vendeu a casa que viveu por muitos anos. Vendeu sua casa e entregou aos pobres tudo o que tinha, assim chegou no Lar São Vicente de Paulo, leu o seu velho livro e como de costume, as sete horas, o sino tocou, mas nesse dia... nesse dia Seo Chico Pereira, não tomou do Chapéu e nem da bengala, apenas acrescentou: Vamos dormir meus irmãos. Porque de hoje em diante, vou morar no asilo com vocês”  - e naquele 18 de abril de 1932, com clima outonal, seu Chico adentrou as portas do Asilo, do Lar São Vicente de Paulo.
Jazigo de Chico Pereira - Cemitério Cristo Rei de Tatuí
Encerrando o capítulo VI, Paulo Setúbal acentua uma conversa de Jesus com seu querido e estimado professor, explicitando na ficção, pois quando escrevera Confiteor Seu Chico ainda mantinha o costume rotineiro de ler seu velho livro aos amigos e irmãos, habito que no dia 12 de agosto, sábado de inverno às 13 horas, do ano de 1944, depois de ser realizado o 2º semana dedicada ao escritor que tanto amou o primeiro professor, falece Francisco Evangelista Pereira de Almeida, o seu Chico Pereira, naquele momento o professor aposentado, o venerado mestre-escola se encontra com Jesus e num ato de caridade, ainda professor, sempre caridoso com certeza depois de tanto “Abrir-Portas” foi recebido no céu por Jesus, e, mais certeza ainda tenho que foi recebido por Jesus conforme Setúbal previu: “Santo Chico, o reino de meu pai tem muitas moradas. Esta a que fica rente do trono eu a construí e enfeitei para você. E isso, meu filho, porque tive fome e me deu de comer, porque tive sede e você me deu de beber, porque andei sem abrigo e você me recolheu, porque estive nu e você me vestiu, porque caí enfermo e você me visitou.... Em verdade, Chico, em verdade eu digo: Todas as vezes que você fez estas coisas a um destes meus irmão pequeninos, a mim o fez. Viva, pois, de hoje em diante e para a eternidade, na casa que eu construí e preparei para você.”

“Na caridade Chico Pereira foi exemplo de Cristão” - Hino de Tatuí

Dedicado a Memória de todas as almas caridosas e esquecidas de minha Tatuí.

EEPSG Chico Pereira - Rua Santo Antônio em Tatuí

Jazigo de Chico Pereira - Cemitério Cristo Rei de Tatuí

Jazigo de Chico Pereira - Cemitério Cristo Rei de Tatuí


Bibliografia
Mota, Lourenço Dantas – PAULO SETÚBAL – Academia Paulista de Letras - São Paulo – Junho de 1983
Setúbal, Paulo – CONFITEOR – Editora Nacional – 13ª edição – 1993.
Teixeira, Messias Gonçalves – PAULO SETÚBAL – Campinas 1987.
Harrell, Tomas William Mendonza – Reprodução fotográfica
Barros, Donny – Arquivo

Agradecimentos:
Museu Paulo Setúbal
Lar São Vicente de Paulo
Cemitério Cristo Rei

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